O caderno literário Literando é um projeto da disciplina de Teoria da Literatura do curso de Letras da Univille, ministrada pela professora Taiza Mara Rauen Moraes. Esta é a 4° edição do caderno.
Tuesday, June 06, 2017
Friday, May 19, 2017
A sátira social de Gregório de Matos
MOMENTO HISTÓRICO
O século XVII europeu constitui época conturbada devido a uma
forte crise espiritual: de um lado, o racionalismo (Descartes, Newton, Leibnitz
e Pascal) e de outro, a Contrarreforma, concretizado pela Inquisição e pelo
aparato de dominação ideológico-religioso, utilizado nas Colônias pela
Península Ibérica. Daí o conflito entre o absolutismo contra reformista dos
domínios da Casa da Áustria e o modus vivendi reformista e burguês
característico da República das Províncias Unidas dos Países Baixos. A ambivalência
seiscentista estruturou-se em dois polos: um demarcado pela submissão ao
autoritarismo da fé e do poder político e o outro, pelos precursores ensaios de
uma interpretação mecanicista e científica cartesiana de um Deus __ não mais
transcendência voluntarista, mas, apenas, garantia do equilíbrio universal de
imutáveis leis científicas. Em Portugal, a desintegração da União Ibérica (1580
- 1640), sob a égide da restauração da Dinastia dos Bragança, com D. João IV
(1640 - 1656), desencadeia o fortalecimento da burguesia urbana em função do
comércio de produtos brasileiros. O dinheiro burguês e as alianças diplomáticas
e militares com a Holanda, a Inglaterra e a França sustentaram a guerra da
independência frente à Espanha expandindo uma nova mentalidade comprometida
com fatores de ordem extra religiosa e afastamento da influência castelhana que vão caracterizar os rumos da cultura
portuguesa, na época e a emergência de uma visão de mundo que promoveu a multiplicação
dos folhetos polêmicos e satíricos, antes e depois da Restauração, e o
aparecimento dos jornais mensais como, por exemplo, o Mercúrio Português (1663
- 1667).No entanto, apesar da “maré” renovadora, as ordens religiosas,
especialmente a Companhia de Jesus e a Inquisição, vão manter a condução da
vida sociocultural e dos negócios do Estado. A Universidade de Coimbra até a segunda
metade do séc. XVII, reproduziu ensino eminentemente escolástico e formalista,
inteiramente divorciado dos avanços científicos e filosóficos, marcantes na Europa.
No Brasil, até 1654 (assinatura pelas autoridades holandesas da sua rendição, a
Capitulação da Campina do Taborda), os efeitos da União Ibérica fazem-se sentir
pela constante presença invasora de estrangeiros, hostis aos interesses da
dominação social espanhola. A disputa hispano-holandesa, agravada pela
intervenção da França e da Inglaterra, visa, sobretudo, à queda do monopólio
comercial luso-espanhol. Durante o século XVII, o expansionismo holandês,
financiado e dirigido pela Companhia das Índias Ocidentais, sobressai-se não só
pela quantidade das arremetidas militares, como também pela longevidade, da
dominação conseguida. Além da ocupação de Pernambuco (1630 - 1654), os
holandeses, desde 1624-25, realizam sucessivas investidas contra Salvador,
ocasionando constantes perturbações na vida socioeconômica da cidade, tanto
pelo constante clima de tensão e violência, quanto pela desorganização dos meios
de produção, resultante da destruição de inúmeros engenhos de cana e da
insegurança dos transportes e do comércio, por via marítima. A partir da
restauração portuguesa, a administração colonial passa a ser controlada pelo
Conselho Ultramarino (1642) - destinado a liberar sobre “todas as matérias e
negócios de qualquer qualidade que forem tocando aos ditos Estados da Índia,
Brasil” __ como também pela Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil
(1649), ambas as medidas da iniciativa de D. João IV. No final do século XVII,
passam a ocorrer, no Brasil, vários levantes contra o estado português. São os
chamados “movimentos nativistas” que, embora não vissem a um projeto de
separação política de Portugal, propõem reformas setoriais no sistema colonial.
A revolta de Beckman (1684-85), foi uma das conspirações seiscentistas que
confirmaram o caráter regional destes distúrbios e sua principal motivação: o
conflito entre produtores (senhores de engenho) e comerciantes (burguesia
mercantil) em torno das práticas do monopólio comercial que possibilita a seus
agentes amplos privilégios no contexto da dominação portuguesa, mescla, no
convívio dissonante entre a o colonizador, os negros/africanos, povos indígenas.
Triste Bahia
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a
máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto
açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus
que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
Descreve o
que era naquele tempo a cidade da Bahia
Gregório de Matos
BOSI, Alfredo.História concisa da Literatura Brasileira.São Paulo: Editora Cultrix, 1994.
BOSI, Alfredo.História concisa da Literatura Brasileira.São Paulo: Editora Cultrix, 1994.
Pergunta-se: de que forma nos poemas Triste Bahia e Descreve o que
era naquele tempo a cidade da Bahia, Gregório de Matos estrutura os jogos
sonoros, as rimas burlescas, as antíteses como veículo de sátira, sons
imitativos, metáforas, hipérbatos e outras modalidades conceptistas e cultistas
próprias da escrita barroca.
Tuesday, May 09, 2017
SERMÃO DA SEXAGÉSIMA
“Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos
pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni
creaturae:
«Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são
criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois
hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de
pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque
como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras
e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de
criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam
de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores
evangélicos vão pregar ar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as
criaturas?! Grande desgraça! ” (p. 3)
“Oh
que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este
semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam
os primeiros trabalhos, lograr-se- ão os últimos. Dá-me grande exemplo o
semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do
trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se
perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os
espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram
os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel
da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão
também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os
frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida?” (p. 4)
“O pregador concorre com o espelho, que é
a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os
olhos, que é o conhecimento.” (p. 6)
Os
ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de
Deus; se
são
maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. (p. 7)
SERMÃO DE SANTO ANTONIO AOS PEIXES
PADRE ANTÔNIO VIEIRA
“Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior
auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não
falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes
que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume
quase se não sente. Por esta causa mão falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim
será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelo
encaminhar sempre à lembrança destes dois fins. ” (p.4)
“Vindo, pois, irmãos, às vossas virtudes, que são as que só podem
dar o verdadeiro louvor, a primeira que se me oferece aos olhos hoje, é aquela
obediência com que, chamados, acudistes todos pela honra de vosso Criador e
Senhor, e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus
da boca de seu servo António. Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes e
grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António,
querendo-o lançar da terra e ainda do Mundo, se pudessem, porque lhes
repreendia seus vícios, porque lhes não queria falar à vontade e condescender
com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à
sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio e com
sinais de admiração e assenso (como se tiveram entendimento) o que não
entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra
os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão quietos e tão
devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham
convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu
Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão
sem o uso, e os peixes o uso sem a razão. ” (p.5)
“Este é, peixes, em comum o natural que em todos vós louvo, e a
felicidade de que vos dou o parabém, não sem inveja. Descendo ao particular,
infinita matéria fora se houvera de discorrer pelas virtudes de que o Autor da
natureza a dotou e fez admirável em cada um de vós.” (p.8)
QUESTÃO
O Sermão da Sexagésima foi pregado na Capela
Real (Lisboa), provavelmente em 31 de
Janeiro de 1655, para discutir a arte de fazer sermões e os
efeitos da multiplicação da palavra divina, enfatizando que “A semente é a palavra de Deus”, e que "Se
a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da
palavra de Deus?".
Opere uma comparação entre o Sermão da Sexagésima e o Sermão de Santo Antônio aos Peixes, pregado em S. Luís do Maranhão, a 13 de junho (dia de Santo António no calendário litúrgico) de 1654 e desenvolva um olhar crítico sobre a relação que o Padre Vieira propõe comparando os homens e os peixes.
Opere uma comparação entre o Sermão da Sexagésima e o Sermão de Santo Antônio aos Peixes, pregado em S. Luís do Maranhão, a 13 de junho (dia de Santo António no calendário litúrgico) de 1654 e desenvolva um olhar crítico sobre a relação que o Padre Vieira propõe comparando os homens e os peixes.
Referências:
Moiséis, Massaud. A Língua Portuguesa através
dos textos,São Paulo, Editora
Cultrix, 1ª Edição - 1968, pág.141
http://www.culturatura.com.br/obras/Serm%C3%A3o%20da%20Sexag%C3%A9sima.pdf
http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/padreantoniovieira/stoantonio.htm
Imagem: (https://grijo.wordpress.com/tag/sermao-aos-peixes/)
http://www.culturatura.com.br/obras/Serm%C3%A3o%20da%20Sexag%C3%A9sima.pdf
http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/padreantoniovieira/stoantonio.htm
Imagem: (https://grijo.wordpress.com/tag/sermao-aos-peixes/)
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