Friday, May 19, 2017

      A sátira social de Gregório de Matos




Resultado de imagemGregório de Matos (1623 - 1696), baiano, formado em Coimbra, Portugal, escreve sobre a Bahia trazendo à luz o sistema político corroendo as aparências por ela dadas. Alerta o povo para uma verdadeira visão do que ocorre no clero, nos governos e no sistema comercial também.

MOMENTO HISTÓRICO
O século XVII europeu constitui época conturbada devido a uma forte crise espiritual: de um lado, o racionalismo (Descartes, Newton, Leibnitz e Pascal) e de outro, a Contrarreforma, concretizado pela Inquisição e pelo aparato de dominação ideológico-religioso, utilizado nas Colônias pela Península Ibérica. Daí o conflito entre o absolutismo contra reformista dos domínios da Casa da Áustria e o modus vivendi reformista e burguês característico da República das Províncias Unidas dos Países Baixos. A ambivalência seiscentista estruturou-se em dois polos: um demarcado pela submissão ao autoritarismo da fé e do poder político e o outro, pelos precursores ensaios de uma interpretação mecanicista e científica cartesiana de um Deus __ não mais transcendência voluntarista, mas, apenas, garantia do equilíbrio universal de imutáveis leis científicas. Em Portugal, a desintegração da União Ibérica (1580 - 1640), sob a égide da restauração da Dinastia dos Bragança, com D. João IV (1640 - 1656), desencadeia o fortalecimento da burguesia urbana em função do comércio de produtos brasileiros. O dinheiro burguês e as alianças diplomáticas e militares com a Holanda, a Inglaterra e a França sustentaram a guerra da independência frente à Espanha expandindo uma nova mentalidade comprometida com  fatores de ordem extra religiosa e  afastamento da influência castelhana  que vão caracterizar os rumos da cultura portuguesa, na época e a emergência de uma visão de mundo que promoveu a multiplicação dos folhetos polêmicos e satíricos, antes e depois da Restauração, e o aparecimento dos jornais mensais como, por exemplo, o Mercúrio Português (1663 - 1667).No entanto, apesar da “maré” renovadora, as ordens religiosas, especialmente a Companhia de Jesus e a Inquisição, vão manter a condução da vida sociocultural e dos negócios do Estado. A Universidade de Coimbra até a segunda metade do séc. XVII, reproduziu ensino eminentemente escolástico e formalista, inteiramente divorciado dos avanços científicos e filosóficos, marcantes na Europa. No Brasil, até 1654 (assinatura pelas autoridades holandesas da sua rendição, a Capitulação da Campina do Taborda), os efeitos da União Ibérica fazem-se sentir pela constante presença invasora de estrangeiros, hostis aos interesses da dominação social espanhola. A disputa hispano-holandesa, agravada pela intervenção da França e da Inglaterra, visa, sobretudo, à queda do monopólio comercial luso-espanhol. Durante o século XVII, o expansionismo holandês, financiado e dirigido pela Companhia das Índias Ocidentais, sobressai-se não só pela quantidade das arremetidas militares, como também pela longevidade, da dominação conseguida. Além da ocupação de Pernambuco (1630 - 1654), os holandeses, desde 1624-25, realizam sucessivas investidas contra Salvador, ocasionando constantes perturbações na vida socioeconômica da cidade, tanto pelo constante clima de tensão e violência, quanto pela desorganização dos meios de produção, resultante da destruição de inúmeros engenhos de cana e da insegurança dos transportes e do comércio, por via marítima. A partir da restauração portuguesa, a administração colonial passa a ser controlada pelo Conselho Ultramarino (1642) - destinado a liberar sobre “todas as matérias e negócios de qualquer qualidade que forem tocando aos ditos Estados da Índia, Brasil” __ como também pela Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil (1649), ambas as medidas da iniciativa de D. João IV. No final do século XVII, passam a ocorrer, no Brasil, vários levantes contra o estado português. São os chamados “movimentos nativistas” que, embora não vissem a um projeto de separação política de Portugal, propõem reformas setoriais no sistema colonial. A revolta de Beckman (1684-85), foi uma das conspirações seiscentistas que confirmaram o caráter regional destes distúrbios e sua principal motivação: o conflito entre produtores (senhores de engenho) e comerciantes (burguesia mercantil) em torno das práticas do monopólio comercial que possibilita a seus agentes amplos privilégios no contexto da dominação portuguesa, mescla, no convívio dissonante entre a o colonizador, os negros/africanos, povos indígenas.

 Resultado de imagem para colégio do Salvador da Bahia, fundado pelo padre Manoel da Nóbrega, em 1553

Collegio do Salvador da Bahia, fundado pelo padre Manoel da Nóbrega, em 1553

Triste Bahia

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,


Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,


A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda


Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
                                                      

Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia



Gregório de Matos

BOSI, Alfredo.História concisa da Literatura Brasileira.São Paulo: Editora Cultrix, 1994.



Pergunta-se:  de que forma nos poemas Triste Bahia e Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia, Gregório de Matos estrutura os jogos sonoros, as rimas burlescas, as antíteses como veículo de sátira, sons imitativos, metáforas, hipérbatos e outras modalidades conceptistas e cultistas próprias da escrita barroca.

Tuesday, May 09, 2017

SERMÃO DA SEXAGÉSIMA







“Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar ar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça! ” (p. 3)
 “Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se- ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida?”  (p. 4)
“O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento.” (p. 6)
Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se
são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. (p. 7)

                                   SERMÃO DE SANTO ANTONIO AOS PEIXES
PADRE ANTÔNIO VIEIRA




“Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa mão falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelo encaminhar sempre à lembrança destes dois fins. ” (p.4)

“Vindo, pois, irmãos, às vossas virtudes, que são as que só podem dar o verdadeiro louvor, a primeira que se me oferece aos olhos hoje, é aquela obediência com que, chamados, acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor, e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo António. Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes e grande afronta e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António, querendo-o lançar da terra e ainda do Mundo, se pudessem, porque lhes repreendia seus vícios, porque lhes não queria falar à vontade e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando com silêncio e com sinais de admiração e assenso (como se tiveram entendimento) o que não entendiam. Quem olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes o uso sem a razão. ” (p.5)

“Este é, peixes, em comum o natural que em todos vós louvo, e a felicidade de que vos dou o parabém, não sem inveja. Descendo ao particular, infinita matéria fora se houvera de discorrer pelas virtudes de que o Autor da natureza a dotou e fez admirável em cada um de vós.” (p.8)


                                                           QUESTÃO

O Sermão da Sexagésima foi pregado na Capela Real (Lisboa), provavelmente em 31 de Janeiro de 1655,  para discutir a arte de fazer sermões e os efeitos da multiplicação da palavra divina, enfatizando que “A semente é a palavra de Deus”, e que "Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?".
       Opere uma comparação entre o Sermão da Sexagésima e o Sermão de Santo Antônio aos Peixes, 
pregado em S. Luís do Maranhão, a 13 de junho (dia de Santo António no calendário litúrgico) de 1654 e desenvolva um olhar crítico sobre a relação que o Padre Vieira propõe comparando os homens e os peixes.


Referências:
     Moiséis, Massaud. A Língua Portuguesa através dos textos,São Paulo, Editora Cultrix, 1ª Edição - 1968, pág.141
 http://www.culturatura.com.br/obras/Serm%C3%A3o%20da%20Sexag%C3%A9sima.pdf 
http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/padreantoniovieira/stoantonio.htm
Imagem: (https://grijo.wordpress.com/tag/sermao-aos-peixes/)

Wednesday, November 16, 2016

O caderno literário Literando é um projeto da disciplina de Teoria da Literatura  do curso de Letras da Univille, ministrada pela professora Taiza Mara Rauen Moraes. Esta é a 3° edição do caderno.

























Thursday, July 28, 2016

Resenha Crítica
Autor da Resenha:
Philipe Macedo Pereira
Referência do Texto:
GADAMER, Hans-Georg. Ciência histórica e linguagem (1987). In: Hermenêutica em retrospectiva. Tradução  Marco Antônio Casanova. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009
Palavras-chaves (3):
Linguagem, hermenêutica, ciência histórica
Desenvolvimento do Texto:
       Em “Ciência histórica e linguagem”, Gadamer discorre sobre a importância da linguagem para a construção de uma história humana. O autor inicia seu texto citando o filósofo Koselleck a partir de ideias deste sobre a obra Ser e tempo, de Heidegger, para tratar da hermenêutica, a qual permeia o escrito do filósofo alemão.
       O autor aponta a questão, percebida principalmente pelos grupos mais jovens, com relação à falta de esperanças no futuro, e a necessidade de pensar a filosofia com vistas não somente de retrospectiva, mas também analisando o que pode estar à frente. E destaca a procura humana pelo sentido, o que representaria uma resistência às adversidades: “[...] em face de todos os desafios que a realidade nos apresenta por meio do disparate, da loucura e da ausência de sentido avassaladora, resistir e permanecer incansável na busca pelo compreensível e pelo sentido” (GADAMER, 1987, p.341).
        Hans-Georg Gadamer faz referência a Aristóteles que pontua a linguagem como a distinção maior entre humanos e animais, uma vez que esta, na visão do filósofo, permite não apenas estabelecer comunicação através de sinais, mas permite ao ser humano “[...] um campo de jogo de possibilidades, um campo de jogo de outro tipo, que é aberto para nós” (p.342). Para Gadamer, a linguagem abre novas possibilidades de representações das coisas e afeta o agir racional, através da habilidade de “deixar algo permanecer incerto” (p.343). Pontua-se também a possibilidade de (re)ordenação através da linguagem, de modo a apagar ou modificar erros anteriores de comunicação.
        No primeiro parágrafo da página 344, o autor faz referência ao historiador alemão Droysen e aos filósofos Schleiermacher e Dilthey para tratar da ciência histórica enquanto constituindo elementos da hermenêutica, procurando a compreensão dos fatos e estabelecendo pensares. Gadamer cita o caráter linguístico da hermenêutica como algo que além de dizer respeito aos textos,  também implica “à condição fundamental do ser de toda ação e de toda criação humanas [...]” (p.344). O filósofo também cita que a linguagem está presente ao narrar-se histórias de guerra, bem como “o suicídio e as formas de diferenciação entre público e secreto” (p.345). E aponta o texto histórico como algo que nunca está concluído, mas abre espaço para incógnitas.
         Gadamer relevantemente pontua que o fascínio das narrativas históricas está no caráter hermenêutico delas, ou seja, há o reconhecimento de si nos outros, e que o olhar compreensivo humano deveria ser dirigido “para o que é comum a todos nós, algo que conhecemos melhor no outro do que em nós mesmos” (p.346). Dessa forma, evidencia a necessidade de olhar para a história sob um viés hermenêutico, reconhecendo neste movimento a linguagem como ponto central de seu discurso.
      


Monday, November 30, 2015

Atividade de Teoria da Literatura II

Fazer leitura comparativa dos aspectos intertextuais atualizados nas narrativas curtas - BICICLETAS, de Péricles Prade (In Correspondências- narrativas mínimas. Porto Alegre: Movimento, 2009) e O ciclista, de Dalton Trevisan (In O beijo na nuca. São Paulo: Record. 2014).

O ciclista
Dalton Trevisan

Curvado no guidão lá vai ele numa chispa. Na esquina dá com o sinal vermelho e não se perturba – levanta vôo bem na cara do guarda crucificado. No labirinto urbano persegue a morte como trim-trim da campainha: entrega sem derreter sorvete a domicílio.
É sua lâmpada de Aladino a bicicleta e, ao sentar-se no selim, liberta o gênio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso, desvia de fininho o poste e o caminhão; o ciclista por muito favor derrubou o boné.
Atropela gentilmente e, vespa furiosa que morde, ei-lo defunto ao perder o ferrão. Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfono esqueleto. Se não se estrebucha ali mesmo, bate o pó da roupa e – uma perna mais curta – foge por entre nuvens, a bicicleta no ombro.
Opõe o peito magro ao pára-choque do ônibus. Salta a poça d´água no asfalto. Nem só corpo, touro e toureiro, golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.
Ao fim do dia, José guarda no canto da casa o pássaro de viagem. Enfrenta o sono trim-trim a pé e, na primeira esquina, avança pelo céu na contramão, trim-trim.

Tuesday, November 10, 2015

As metamorfoses de Nuno Ramos


"Nuno Ramos – o grande artista plástico brasileiro - lançou em 2001 seu segundo livro de poesia, abstrusamente classificado na ficha catalográfica como “ficção brasileira”. Bernardo Carvalho, em sua coluna no jornal Folha de São Paulo [1], tapa os olhos para enxergar contos na prosa poética desse livro; não sei o que diria ao analisar os Pequenos Poemas em Prosa de Baudelaire... Chega de apropriações indébitas de gênero: O Pão do corvo é um livro de poesia como o anterior Cujo, também escrito em prosa e publicado pela Editora 34, em 1993.Não sei a quem atribuir a apropriação, que certamente não fará diferença alguma no destino da obra no mercado; contudo, fato é que, na Folha de São Paulo, Nuno Ramos publicou anteriormente um dos textos desse livro, em prosa como todos os outros, como poema [2]. Ademais, não fosse poesia, o livro seria uma obra filosófica, e não ficção."

Trecho extraído: Rodapé, revista de crítica de literatura brasileira contemporânea, São Paulo: Nankin Editorial, n. 3, nov. 2004, p. 137-144






Nunos Ramos expôs, no dia 25 de setembro de 2010, a instalação Bandeira Branca, na 29ª Bienal de São Paulo, que despertou uma série de polêmicas. Segundo a crítica, nenhum trabalho causou tanto burburinho quanto ‘Bandeira Branca’, do paulistano Nuno Ramos, posicionada no vão central do edifício projetado por Oscar Niemeyer. Ousada, a obra foi exibida pela primeira vez em 2008, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, e traz três esculturas. No alto de uma delas, caixas de som tocam músicas como 'Carcará'. Dentro dessa área, cercada por uma rede, foram soltos três urubus-de-cabeça-amarela vivos - o motivo da confusão.

Proposta:
  • Navegue na web e, numa leitura intertextual, descubra as metamorfoses de Nuno Ramos e poste suas impressões leitoras.