Tuesday, November 10, 2015

As metamorfoses de Nuno Ramos


"Nuno Ramos – o grande artista plástico brasileiro - lançou em 2001 seu segundo livro de poesia, abstrusamente classificado na ficha catalográfica como “ficção brasileira”. Bernardo Carvalho, em sua coluna no jornal Folha de São Paulo [1], tapa os olhos para enxergar contos na prosa poética desse livro; não sei o que diria ao analisar os Pequenos Poemas em Prosa de Baudelaire... Chega de apropriações indébitas de gênero: O Pão do corvo é um livro de poesia como o anterior Cujo, também escrito em prosa e publicado pela Editora 34, em 1993.Não sei a quem atribuir a apropriação, que certamente não fará diferença alguma no destino da obra no mercado; contudo, fato é que, na Folha de São Paulo, Nuno Ramos publicou anteriormente um dos textos desse livro, em prosa como todos os outros, como poema [2]. Ademais, não fosse poesia, o livro seria uma obra filosófica, e não ficção."

Trecho extraído: Rodapé, revista de crítica de literatura brasileira contemporânea, São Paulo: Nankin Editorial, n. 3, nov. 2004, p. 137-144






Nunos Ramos expôs, no dia 25 de setembro de 2010, a instalação Bandeira Branca, na 29ª Bienal de São Paulo, que despertou uma série de polêmicas. Segundo a crítica, nenhum trabalho causou tanto burburinho quanto ‘Bandeira Branca’, do paulistano Nuno Ramos, posicionada no vão central do edifício projetado por Oscar Niemeyer. Ousada, a obra foi exibida pela primeira vez em 2008, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, e traz três esculturas. No alto de uma delas, caixas de som tocam músicas como 'Carcará'. Dentro dessa área, cercada por uma rede, foram soltos três urubus-de-cabeça-amarela vivos - o motivo da confusão.

Proposta:
  • Navegue na web e, numa leitura intertextual, descubra as metamorfoses de Nuno Ramos e poste suas impressões leitoras.


10 comments:

Daniela Schmidt said...

Ao cruzarmos as imagens da exposição “Bandeira Branca” com o conto “O Silêncio”, extraído do livro “O Pão do Corvo”, ambos produzidos por Nuno Ramos, observamos algumas relações com a constituição da nossa sociedade, resumidas em três palavras-chave: silêncio, solidão e morte.

O silêncio é, por vezes, reconhecido como um sinônimo de solidão, como a morte da correspondência; ignora-se o valor retórico da reticência. Em “O Silêncio”, Nuno Ramos descreve o silêncio como algo além da existência humana “Está desde antes de entrarmos e vai continuar depois que sairmos, depois que o expediente terminar, depois que todos forem embora.”. Esse “ir embora” pode significar qualquer coisa entre deixar um espaço ou deixar a vida.

Na exposição, vemos o aprisionamento do silêncio, da morte. Sob nossa perspectiva, a exposição representa a indignação do artista decorrente de nossa sociedade perante aquilo que não é aceito, principalmente, os dejetos. Como é sabido, os urubus se banqueteiam com alimentos em estado de putrefação, elementos essenciais para a manutenção da vida. É como diz a canção:

“Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará”

Alunos: Agostinho, Daniela Schmidt, Roger e Thiers.

Anonymous said...

Alunas: Flávia e Daiane

Ao analisar o conto de Nuno Ramos, "Silêncio" tivemos a impressão que o artista quis ressaltar em sua obra "Bandeira branca", que as pessoas não tem mais vontade de relacionar-se com outras.

Em sua obra no pavilhão da Bienal de São Paulo Oscar Niemeyer, no qual ele levou três
esculturas, umas delas caixas de som tocando músicas, onde no conto é citado que o silêncio está dentro de nós mesmos quando ouvimos uma melodia, samba.

Em uma outra obra do mesmo artista havia rede, onde foram soltos três urubus, no qual o silêncio podia estar nos arrulhos desde a altura improvável das cornijas, como falado no conto.
Nuno Ramos, deixou em entrelinhas que o silêncio pode estar em todos os lugares e que mesmo assim muitas vezes está na nossa frente e nós apenas seguimos em frente.

O silêncio é conhecido como ausência de comunicação, ainda que por meios diferentes da fala. Em “O Silêncio”, Nuno Ramos descreve o silêncio como algo além, “Parece um silêncio que vem das coisas, do que está parado, não das pessoas que murmuram baixo seu cansaço, sua falta de assunto, sua vontade de estar em outro lugar”. Esse trecho pode significar qualquer coisa entre o silêncio da comunicação entre as pessoas e o silêncio das coisas, do que está parado.

Anonymous said...

Caroline Schmidt
Fernanda Amorim
Mayessa Silva
Vivian Braz


Nuno Ramos, como defensor da preservação animal fez uma relação da obra "Bandeira Branca". Esta colocava três urubus expostos em um espaço agitado e com grande circulação de pessoas. A iniciativa vai totalmente contra o habitat natural deste animal. A exposição fez com que alguns manifestantes não entendessem a real critica da exposição, já que provavelmente não procuraram conhecer mais profundamente outras obras de Nuno Ramos, suas críticas e preocupações.
O artista foi até o nordeste, onde havia um abrigo para animais silvestres resgatados,porém o lugar era precário e os mesmos careciam de tratamentos adequados. Nuno os tirou de lá para em um primeiro momento levá-los a exposição, para depois, mais tarde soltá-los no meio ambiente, entendendo que este espaço seria melhor para os urubus.
Além disto os urubus podem representar indivíduos que estão à margem da sociedade , como os negros e os nordestinos, por exemplo. O urubu é um animal de coloração escura, que é visto pelo senso comum como um animal sujo e inferior aos outros. Do mesmo modo como negros foram e ainda são tratados por algumas pessoas na sociedade. A crítica faz referência também a um estereótipo de beleza enraizado na cultura, que diz que a beleza negra não é tão bonita quanto a beleza branca. Com relação aos nordestinos Nuno revela na prisão e esquecimento destes animais, o esquecimento deste povo por parte do governo e dos brasileiros, o nordeste por vezes é lembrado apenas em alguns momentos, porém na maior parte do tempo está esquecido, tanto por parte do governo como das pessoas.

Kevin Inocencio said...

Nuno Ramos aborda em suas metamorfoses duas faces, dois temas que causam desconforto na sociedade, o aprisionamento e a morte. Por meio da retirada de animais selvagens de seu habitat natural e "encarcerando-os" em uma instalação de arte, Nuno reflete as amarras impostas pela sociedade opressora e condicionante, onde somos diariamente encarcerados e obrigados a viver sobre regras que talvez não seriam nossa primeira escolha. Quanto a morte, Nuno ramos traça uma linha progressiva e agoniante que reflete a solidão a qual estamos acometidos. Durante sua narrativa, Nuno foca-se nos sentimentos conflitantes que acompanham o eu-lírico em seus últimos momentos construindo assim um jogo no qual o leitor se vê refletido, caminhando juntamente com o personagem por meio das sensações descritas. Fazendo uma ponte entre o texto e a instalação de Nuno Ramos, notamos que elas se relacionam quando cruzamos a progressiva caminhada em direção a vida espiritual, presente no texto, e a presença de Urubus, animais conhecidos pela alimentação baseada em corpos putrefeitos de outros animais, que simbolizam purificação e limpeza profunda.

Allis Machado, Camila Gomes, Carolina Floriano, Isabel Ignacio e Kevin Inocêncio.

Anonymous said...

Alunos: Cymara Sell, Jeferson Veiga e Nicole Barcelos

“Pois há o destino dos filhos do homem
E o destino do animal
E é um o destino para ambos
A morte deste feito a morte daquele
E um sopro para todos
E o importe do homem acima do animal não há
Pois tudo é névoa-nada.
Tudo vai para um só lugar
Tudo veio do pó
E tudo volta ao pó
Quem sabe se o sopro dos filhos do homem
Sobe para o alto
E o sopro do animal
Desce terra abaixo?”
(Haroldo Campos; Qohélet = O que sabe : Eclesiastes : poema sapiencial)

Como capturar o silêncio para entrega-lo a alguém? Talvez por imagens; mas dê-se uma e se entenderá o que ela figura, não o silêncio. E não se entrega pronunciando-o, como adverte Szymborska. É preciso, pois, captura-lo pela palavra escrita, ou menos, pela imagem acústica. Mas não entregá-lo assim, na solidão de um significante – “silêncio”. Que se entregue atado ao tempo, desdobrado, silêncio que reverbera e se faz melódico. Ele, “que está antes de entrarmos e vai continuar depois que sairmos”, só pode ser capturado pelas coisas mudas e paradas. Desenhado pelo poema.
Por que capturar o silêncio, porque dá-lo? Quem sabe porque tudo foi dito. Ou, se não tudo, demasiado. Ou ainda, por que é o silêncio uma experiência sem a qual uma vida humana não se completa. Assim como não se completa sem que se saiba – e se lembre, permanentemente - que ela é finita. Olhar o silêncio é escutar nossa morte.
Como capturar a morte para entregá-la a alguém? Se o silêncio é delimitado por palavras, a morte delimita-se pelo corpo. O corpo: alimento que se alimenta. O corpo, pão do corvo. O corpo do corvo que conterá enfim nosso corpo podre.
Mas a palavra corvo não é seu corpo. Um poema se faz com palavra; a poesia está nos corpos. Nos corpos dos urubus, corvos daqui. Pelo seu vôo capturado, a morte nos é entregue. Pela areia (usada para contar o tempo nas ampulhetas) e vai se diluindo de pedra a vidro. Pelas formas assombradas que lembram a nossa vida entre castelos de cimento e as colunas que nada sustentam, apenas apontam para o alto como um desejo de vôo, de transcendência. Ou chaminés que jogam ao céu o que se consumiu no fogo; voltaremos ao pó, e como tudo é vaidade, ao sopro também. Entregues aos urubus, alcançamos seu vôo e tombamos com suas fezes. Brancas como as paredes de nossos hospitais e galerias onde tentamos inutilmente escapar do fim.
Bandeira branca, pedimos, não podemos mais, porque a morte do outro nos é dor, e a nossa, terror. Com sua obra poética e plástica Nuno nos amedronta e nina, crianças com medo da careta da morte que somos, e demonstra: os urubus em seu silêncio de nevermore tem mais vida e coragem do que nós.

[Continua]

Anonymous said...

Alunos: Cymara Sell, Jeferson Veiga e Nicole Barcelos

[Continuação]

O texto acima reflete a tentativa de um leitor- espectador de tecer uma interpretação que unifique, respectivamente, o poema em prosa “Silêncio”, contido no livro “O Pão do Corvo”, de 2001, e a instalação “Bandeira Branca”, realizada, dentre outras ocasiões, na Bienal de 2010, ambos de autoria de Nuno Ramos. Tendo como característica a tão falada fragmentação, a arte pós-moderna não somente autoriza, como pede, a participação de seu público como forma de conferir-lhe sentido e unidade. E, ainda que óbvias, poucas coisas são tão unificadoras e repletas de sentido nesses tempos quanto a falta de sentido da vida e a mera constatação da morte. Temas, ao mesmo tempo, antigos e pós-modernos, como o Eclesiastes retomado na tradução de Haroldo de Campos, fragmento do repertório pessoal do leitor-espectador.
Nuno transita entre duas linguagens, a literária e a plástica, mas acha “mais rico e divertido” tratar as partes do seu trabalho “como países diferentes”, como o próprio afirma. Talvez porque ao isolá-las, o que se ganha é o trânsito entre ambas, como um viajante que se apropria das paisagens e dos povos no que tem de comum e diferente.
Assim, cabe observar como Nuno trabalha a palavra em seu texto “Silêncio” e diferentes materiais na instalação “Bandeira Branca”.
Jair Ferreira dos Santos afirma que “o pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida e de filosofia nos quais viceja uma ideia tida como arqui-sinistra: o niilismo, o nada, o vazio, a ausência de valores e de sentido para a vida”. Na literatura, afirma, o pós-modernismo “recusa o realismo (o parecer verdadeiro), recusa o enredo com começo, meio e fim, o herói metido em aventuras, o retrato psicológico e social, a mensagem política ou moral (...). Por outro lado, ele quer valorizar os objetos, que são analisados pelo olhar como por uma câmara cinematográfica. E privilegia o texto, o ato de escrever. Com isso, os cerebráticos franceses, porque existe aqui muito de masturbação mental, pretendem dizer que a realidade atual é impenetrável, desordenada, um verdadeiro bode entrópico.”
O poema em prosa captura o silêncio tentando buscar-lhe a origem. Se o som é uma onda que se propaga a partir da vibração de um corpo, de onde brotará o silêncio? “Parece vir das coisas, do que está parado”. O verbo parecer, aí, que não indica a falsidade da procedência, mas a falsidade do movimento de vir; porque o silêncio não se propaga; ele jaz. Por isso imagens de paredes brancas manchadas, relógio parado, planta que cresce imperceptivelmente: a falta de movimento é o silêncio. Está nos cabelos brancos que se cobrem de pó rondados pela morte: o silêncio tem um quê de abandono e, estando na morte, é maior do que ela. Está no frio de uma noite sem lua: a lua que não aquece as noites, mas cuja luz ausente acentua a desolação. Então, quase ao final do texto, um paradoxo: o narrador encontra em si o silêncio enquanto assobia um samba e pula as lajotas. O silêncio está no som e no movimento, afinal? Não. O silêncio está em percebê-lo. É um centro vazio, carente de luz, calor, movimento, que se instala no ser humano diante da inexorabilidade de seu destino. Trazendo imagens, expondo a matéria do cotidiano que nos cerca, o autor desenha esse vácuo, que nunca é penetrado ou vencido, apenas aproximado.


[Continua]

Anonymous said...

Alunos: Cymara Sell, Jeferson Veiga e Nicole Barcelos

[Continuação]

O mesmo vácuo, “buraco negro”, como chamou, que instalou no prédio da Bienal em 2010 com “Bandeira Branca”. Para além da metáfora visual que possa representar a presença de urubus, o artista buscou por intermédio da textura dos materiais, de sons, odores, movimento e estática, circunscrever um vazio. Um vazio que já estava lá, mas que precisava ser tocado, penetrado delicadamente, para que pudesse ser percebido sem preencher-se. Ao defender a obra na Ilustríssima da Folha de São Paulo após ataques do público, Nuno afirma: “Acho que o vão do prédio, uma das obras mais felizes de Niemeyer, com sua velocidade e otimismo, ganhou com meu trabalho um contraponto ambivalente, noturno e encantado, triste mas também próximo do mundo dos contos de fada.(...) Mas o ponto crucial, acho eu, é que, apesar da monumentalidade do trabalho e da textura inacabada da areia, que solicitam o corpo do espectador, o público é mantido fora da obra, numa espécie de antipenetrável. A obra de certa forma já foi ocupada, já tem dono e por isso não podemos nos aproximar. A noite, as canções e os urubus são seus donos, e ao público resta assistir de fora a alguma coisa viva, que não precisa dele (grifo nosso).”
Nuno criou uma atmosfera que celebra o vazio, a mudez diante da vida e o mistério de sua finitude. A cantiga de ninar “Boi de mamão”, com sua melodia terna e sua letra assustadora, é hipnótica, evoca infância com suas fantasias esperançosas e seu terror do abandono. A canção “Bandeira Branca” é um pedido de trégua à dor da saudade, e tocada em seu ritmo carnavalesco, é ela mesma a concessão de uma alegria que substitui a falta. Mas a versão escolhida por Nuno é aquela na voz soturna e grave de Arnaldo Antunes, onde o pedido de paz tem o peso dos desesperados, casando-se com as monumentais formas escuras, a solenidade dos urubus indiferentes e o silêncio que de tudo isso grita. A terceira canção, “Carcará”, lembra a coragem e resistência da ave necrófila que resiste aos homens. Em trindade, os pássaros, as esculturas, as caixas de som, as torres, as canções. Como a divina trindade mas como as três idades humanas também: a infância, com seus sonhos e desamparo; a maturidade, com a constatação desesperançada de que viver é ver morrer, e a velhice, com o vislumbre de que tudo prossegue após nossa própria morte.
Santos, a respeito da arte pós-moderna, lembra que “a antiarte pós-moderna não quer representar (realismo), nem interpretar (modernismo), mas apresentar a vida diretamente em seus objetos. Pedaço do real dentro do real (...)”. É isso que de certa forma faz Nuno Ramos ao apropriar-se e manipular diversos materiais para lembrar-nos que somos matéria, e matéria continuaremos ser, apesar da morte.
Mas, ao contrário do espírito do artista pós-moderno apontado por muitos, que pretende rir de tudo e de todos, Nuno parece procurar, com sua obra, e encontrar na falta de sentido, uma fonte de encantamento, deleite – de sentido, enfim. E se disso não resultar num conjunto de valores ou ideias novas que realmente apontem um rumo, ao menos nossa falta de sentido encontra eco em sua busca. Isso, talvez, o que caiba tanto ao artista quanto ao público. Como já bem dizia o Qohélet:

E eu vi benesse alguma
Salvo o homem se aprazer no seu fazer
Eis aí o seu quinhão
Pois quem o fará sobrevir para ver
Aquilo que será no após-ele?

REFERÊNCIAS:
RAMOS, Nuno. Bandeira Branca, amor. Folha de São Paulo. Disponível em:
RAMOS, Nuno. Site do artista. Disponível em:
RAMOS, Nuno. Silêncio. In: ______. Pão do Corvo. São Paulo: Editora 34, 2001.
SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é pós-moderno. Disponível em:

Deisy Coelho said...

Aluna Deisy Adair Coelho

"Carcará lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro marvado
Tem um bico vorteado que nem avião" A letra de João do Vale e José Cândido que Nuno Ramos escolheu como pano de fundo para sua exposição expressa o silêncio violento da indiferença diante da morte.
Formado em Filosofia pela USP, suas obras que envolvem pintura, escultura e instalação são verdadeiros tratados sobre a humanidade e suas misérias. assim é sua exposição "Bandeira Branca" e seu livro de poesia "O Pão do Corvo".
Quando ligamos o "Silêncio" a "Bandeira Branca" descobrimos um lugar comum. A Presença silenciosa dos urubus sobre esculturas que lembram chaminés de fábricas--industrialização e capitalismo. Os urubus caçados e logo após abandonados pelos órgãos públicos representam tanto como o nordeste é menosprezado pelo resto do país, como também a relação do país com o nordeste--relação de exploração. O nordeste tornou-se o que é hoje por causa da exploração desenfreada de seu solo com o plantio da cana de açúcar. Nos anos de eleição o que fazem os candidatos? Eles sobrevoam, como urubus, o nordeste e prometem melhorar as condições de vida da região, mas tudo que fazem é arrancar e comer todos os votos possíveis. A canção se torna irônica quando pensamos que ela descreve o carcará como mais valente que homem na luta pela sobrevivência, porém os urubus foram vítimas do homem que os caçou para vendê-los e talvez garantir sua subsistência.
Toda a realidade então está intoxicada de morte. Os Urubus, salvos da morte, comem carniça e são pretos--cor do luto. O "Silêncio" fala da morte por indiferença, na ausência de luz "pátio sem luz."
As pessoas que visitaram a exposição e escreveram "soltem os urubus" continuam indiferentes à realidade tanto dos urubus como dos seres humanos que morrem sem ser vistos e dos nordestinos que vivem sem ser notados. Elas não entenderam nada.



Carcará http://lendocancao.blogspot.com.br/2011/06/carcara.html
www.mac.usp.br
Ramos, Nuno. Silêncio. O Pão do Corvo. São Paulo: Ed. 34, 2001.

Leticia Marques Hermesmeyer said...

Gabriela Heidemann, Letícia Marques Hermesmeyer e Maiara Cristine Cabral.

Nuno Ramos, pintor, desenhista, escultor, cenógrafo, ensaísta e videomaker brasileiro, expôs sua obra, ''Bandeira Branca'', na 29ª Bienal de São Paulo. Nela, o autor refletiu sobre consensos e rompimentos inerentes à atividade artística. Na exposição eram mantidos três urubus vivos dentro de um viveiro e havia também três grandes esculturas que remetiam a ideia de túmulos. Na instalação, tocavam três músicas: Boi da cara preta, Carcará e Bandeira Branca.

Muitos defensores de animais, opuseram-se à obra de arte do autor, pois viam aquilo como um maltrato aos urubus, visto que ficaram ali presos durante toda a exposição. No entanto, esses críticos não consideraram que todos estavam ali sob autorização judicial e, portanto, não estavam sofrendo maus-tratos.

Na obra, Ramos almeja chocar os visitantes da Bienal, rompendo com as demais atividades artísticas apresentadas naquela exposição. Cada visitante pôde interpretar de uma maneira diferente, visto que aquela foi uma obra e arte e, assim sendo, abre margem a distintos olhares. É possível relacionar o urubu, como sendo um animal visto pela maioria das pessoas como sujo e inferior, à solidão e à morte. À morte pelo fato de o urubu alimentar-se de restos mortais e à solidão, por remeter-se à tristeza, a partir de sua cor sombria e também por estar preso em um viveiro.

Também vale ressaltar que os urubus ali presentes na exposição ainda representavam os valores impostos pela sociedade, que aprisionam as pessoas para que vivam a partir de esteriótipos impostos pela sociedade e mídia. Os urubus estão presos em um viveiro, representando muitas pessoas que, com medo de julgamentos, se aprisionam a uma realidade que não é a que, verdadeiramente, querem viver.

Em ''O Silêncio'', conto presente no livro ''O Pão do Corvo'',  Nuno Ramos descreve o silêncio como algo que vem das coisas que estão paradas e não das reclamações das pessoas, por exemplo. Assim, relacionando a exposição ''Bandeira Branca'' com o conto ''O Silêncio'', é possível perceber que, em ambos, há relação com a morte, pois, no conto, o autor diz que o silêncio vem das coisas e do que está parado e a pessoa quando morre esta parada, já os urubus presentes na exposição ''Bandeira Branca'' se alimentam dessa carne morta, dos restos mortais.

REFERÊNCIAS:

RAMOS, Nuno. Bandeira Branca, amor. Folha de São Paulo. Disponível em:  . Acesso em: 14 Set. 2015.
GOMES, Augusto. Os dez destaques da 29ª Bienal de Artes de São Paulo. Ig. Disponível em:< http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/os+dez+destaques+da+29+bienal+de+artes+de+sao+paulo/n1237783792110.html>. Acesso em: 14 Set. 2015.
RAMOS, Nuno. O pão do corvo. Ig. Disponível em http://emanuelmonteiro.tumblr.com/post/23676666048/sil%C3%AAncio-in-o-p%C3%A3o-do-corvo-nuno-ramos. Acesso em 19/11/2015.

Anonymous said...

Alunas: Daniela Simon e Carolina Evelyn

Nuno Ramos, Artista Brasileiro nascido em São Paulo, é graduado em Filosofia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP. Para que se tenha uma noção do estilo artístico de Nuno Ramos, o mesmo venceu, em 2000, o concurso realizado em Buenos Aires para a construção de um monumento em memória aos desaparecidos durante a ditadura militar naquele país.
Em relação ao conto "O Silêncio" do livro "O Pão do Corvo", lançado em 2001 é caracterizada uma obra filosófica e ao mesmo tempo poética.Ela é compreendida como repressão das pessoas em relação a comunicação. Entende-se que palavras são mal entendidas e distorcidas o tempo todo. É nesse sentido que muitos preferem calar-se a serem mal interpretados. O próprio nome "Bandeira Branca" pode ser interpretado como "desistência", "paz" ou até mesmo "conformidade".
Durante sua exposição ''Bandeira Branca'', na 29ª Bienal de São Paulo, a trilha sonora fora "Carcará" (de autoria de João do Vale). Suas obras são bastante artificiais e expressam a inorganicidade social.
Considerado que as obras revelam um certo mal-estar, a instabilidade e fragilidade física são um tanto evidentes que tornam-se, também parte da nossa realidade como seres humanos que vivem em uma comunidade.